quarta-feira, abril 2





série telas III






what if we all chose this way out of every tiny problem ?
there would be no one left on earth






terça-feira, abril 1





TEORIA DE MURPHY...OOPS....TEORIA DO GATO FLUTUANTE





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terça-feira, março 25

Interrompo a série "Telas" para divulgar um texto que li "ainda" sobre a relação "aluno/professor" e que achei de uma inteligência ímpar!

daqui



De como eu, professora, chorei, enxuguei as lágrimas e voltei a chorar

Gosto do que faço e esmero-me na preparação da aulas. As horas são tardias, mas teimo em construir materiais pedagógicos adequados às turmas que estão sob a minha responsabilidade.

É que nem sempre os manuais servem para o efeito; muito menos as fichas que existem noutros livros e noutros lugares, elaboradas para outras situações que não as que os meus alunos e as minhas alunas vivem naquele preciso momento. Já foi o tempo em que me perdia com caixinhas e cartolinas coloridas. O dinheiro não chega para tudo e passei a ser mais comedida. Continuo a fotocopiar o que me parece interessante e depois recortar para fazer montagens à medida dos meus meninos e das minhas meninas. Há também o esmero nas apresentações em powerpoint e no treino solitário da leitura expressiva.

Há que preparar tudo, não permitir que a linguagem esteja nem abaixo do nível desejado nem acima a ponto de ser tornar opaca, hermética, incompreensível. Eles sabem da minha paixão pelo mundo do Verbo e eu aproveito a flexibilidade e a curiosidade para lhes falar de coisas outras e entrar, de mansinho, pelo mundo dos valores.

Leio com atenção os textos que me entregam e que estão para além do programa a ser cumprido. Poemas, contos, cartas de amor. Eles e elas exigem uma resposta honesta e argumentada. E, por isso, eu avanço pela noite dentro. Como tantos outros milhares de colegas professores.

Foi de coração aberto que regressei ao 3º ciclo do ensino básico, depois da provação do desemprego sem direito, ainda que inconstitucional, ao subsídio devido. Uma oferta de escola, para substituir uma professora que deu em doida com a nova geração. Era uma professora antiga e por isso, achava eu, mais susceptível a indignações e chiliques afins. Muni-me de leituras do foro da psicologia para enfrentar um punhado de adolescentes com as hormonas aos trambolhões.

Descobri, porém, um mundo muito cão. Turmas de fugir. Entrei na sala, pedi para entrarem com preceito, mandaram-me para o caralho. Sim, assim, com todas as letras. Desculpem, podem repetir?, acho que não ouvi bem... P'ró ca-ra-lho. O dedo espetado, a mão nas partes, o riso, a galhofa... Mandei-os para a rua e marquei-lhes falta. Fui chamada ao Conselho Executivo e ali me disseram que não podia mandar alunos para a rua por dá cá aquela palha. Estupefacta. Petrificada. Sentar com os pés em cima da mesa, recusar-se a sentar com preceito, escarrar para o chão, chamar a professora de monhé e mandá-la para o caralho, não é propriamente aquela palha. Que eles são uns marginalizados, que muito aguentam eles em casa, que na escola exprimem o que lhes vai na alma, pais presos, traficantes ou drogados, mães prostitutas, CPCJ à perna. Uma desgraça. Pois, mas eu não sou psicóloga nem assistente social. Professora. Tenho um programa a cumprir e quero, muito, que eles descubram as maravilhas da língua francesa. Falei com os directores de turma. Que era assim em todas as aulas, com todos os professores. Uma luta diária por uma causa talvez perdida.

Aula seguintes, a começar do zero. Estronsa, chamavam-me eles. Quem me conhece reconhece o trocadilho, certo? Reforço positivo, reforço positivo, reforço positivo... eu bem queria aplicá-lo. Mas como, se não econtrava nada de positivo?
Decidi-me pelos materiais feitos para eles. Algumas directas, um investimento extra e, voilà, rap francês, cartolinas, fotos, cores. Quando entrei na sala, havia alguns papéis no chão. Segui o conselho de uma colega experiente e apanhei-os, para dar o exemplo. Não resultou. Isso, limpa a merda que nós fazemos. Falta disciplinar e comunicado ao Director de Turma. Não vale a pena, estronsa, que isso não serve para nada, você sabe muito bem disso. Nem para a rua nos pode mandar!... Rasgaram as cartolinas que lhes dei, que não iam levar lixo para casa. Atiraram cascas de pevide para o chão. Saltaram. Gritaram.

Eu sou um vulcão que pouca gente conhece. Consigo dominar os sentimentos e manter uma transparência calma e quase imperturbável. O ascendente em gémeos adocica o temperamento fogoso do meu signo. Mas nesse dia a dor foi tão profunda, o desespero tão intenso, a frustração tão real que as lágrimas romperam. E enquanto eles riam, eu chorei. Chorei muito, pela primeira vez em toda a minha vida de professora. Chorei muito, pela primeira vez em toda a minha vida de adulta em público. Chorei por mim e chorei por eles. Chorei por começar a acreditar que eram uma causa perdida. Chorei por saber que estava ali uma porção do futuro.

Não sou das que se deixa desistir facilmente. Sou carneiro. E isso diz tudo. Na aula seguinte, enxuta, experimentei outra estratégia. A dos afectos em simultâneo com o desprezo total. Meus amigos, querem aprender não querem aprender é convosco. Para o ano eu não estarei cá e recuso-me a ficar doente como a vossa professora anterior por causa de um punhado de gente que não merece um peido. Calaram-se, esbugalhados. Não é todos os dias que uma professora fala assim. E mais, fazemos um pacto. Vocês tentam aprender alguma coisa e eu ensino-vos outras, assim à margem. Queremos saber como engatar gajas no verão, stôra. Queremos aprender palavrões. Muito bem. E ficam com o meu contacto no messenger. Comigo falam só em francês.
À noite já eles me tinham adicionado às suas contas. Bom sinal. Depois, aprenderam o bonjour, o excusez-moi, o pardon, o merci, o je peux entrer, o s'il vous plaît, e, também, t'es belle, je t'aime, e, ainda, palavras como putain, merde, con ou connard. Fui assistir aos jogos de futsal de uns, passei a almoçar com outros. E, depois, numa aula, vieram ter comigo e, com uma palmadinha nas costas, que eu era fixe e que tinha passado no teste deles. Aprovada com distinção. Depois foi mais fácil. A ordem restaurou-se; a aprendizagem a passo de caracol.

Na reunião final tinha bastantes negativas para dar. Não vale a pena o choradinho, amigos. Quem sabe sabe, quem não sabe azar. Pois é, madame, tem razão, para o ano vai ser melhor. Afinal, francês até é fixe!

Reunião de conselho de turma. O aluno A tem 4 negativas, há que levantar uma nota para poder passar. Vai a votação, sobe a Francês. Não pode, impossível. Pode sim, a mudança de professor a meio do ano causou intabilidade. Foi a votação. Passou. O aluno B está a atingir a idade limite do ensino obrigatório. Pedagogicamente recomenda-se a aprovação. Segue Francês. Não pode. Pode sim. Instabilidade do corpo docente. E o aluno C, e o aluno D e assim por diante. Mas, ó colegas, eu estou parva, vocês estão parvos ou estamos todos parvos? É assim, senão chumba na reunião do pedagógico e chamam-nos em Agosto. E a gente vem e consolida a argumentação, não? Não, porque as directrizes do Ministério são muito claras.

...É preciso dizer mais alguma coisa?

domingo, março 23

segunda-feira, março 17








Seis "short-stories" passadas na noite de Lisboa, filmadas de maneira despretensiosa. A steady-cam atrás dos actores denuncia a (propositada) fraca imagem do filme.
Fragmentos de histórias de amor, solidão, amizade, obsessões ou infidelidades, com destaque para o diálogo entre Fernando Lopes e Nick Sandows (o pugilista - poderia ser Berlarmino...). "É necessário cair, são necessárias derrotas para saborear os prémios ".


Outros actores: Michael Imperioli e John Ventimiglia, (Sopranos), Joaquim de Almeida, Rogério Samora, Ana Padrão, Drena de Niro (filha de Robert de Niro) e...Joe Berardo, que aparece no filme a dizer a Fernando Lopes que não daria mais dinheiro para o filme. Sobre esta frase JB disse que era muito fácil fazê-la num "take", pois era umas das que utilizava mais durante o dia...


Realizador - Bruno Almeida - 43 anos, nasceu em Paris, cresceu em Lisboa e vive em NY. Lovebirds foi distinguido como prémio do júri Fantasporto.


domingo, março 16


A aula de música




Em Vermeer as mulheres aparecem a maior parte das vezes com as mãos condignamente ocupadas; desde a música que as mais ricas tocam em vários instrumentos, enquanto as de menos posses fazem renda, ou deitam leite numa vasilha para fazer bolos.... Mantêm os olhos no regaço e não são mulheres com crianças ao colo, como é típico dos quadros de cunho religioso da época. Estamos na Holanda e não na Itália renascentista. Mulheres que bebem e se divertem, que olham para fora dos quadros desconfiadas, amedrontadas, quando não olham curiosas ou esperançosas pela janela... (daqui)


terça-feira, março 4




maria gabriela llansol (1931-2008)


"ofereço-lhes o texto que escrevo, ignoro se o entendem, como
ignoro se a minha presença activa bate asas como a borboleta
que causa um tufão sobre o Pacífico
'é para si', e concluo 'é para nós'"



quinta-feira, fevereiro 28



"O problema da tradução da poesia fica dividido entre duas noções: a de textualidade e a de literalidade. A literalidade corresponderia ao que seria a reprodução integral do próprio sentido; a textualidade, à manifestação verbal do poema considerada em si mesma. É sabido que a tradução literal em poesia é impossível porque compromete infalivelmente o poema no seu todo. Na poesia há, com efeito, valores que não são só semânticos. É o caso do ritmo, da rima, dos acentos, da entoação, etc.

A tradução poética põe problemas complexos, relacionados com o facto do poema traduzido se increver num novo espaço verbal, o da língua de chegada. Aí, os significantes são deferentes e as palavras, nessa passagem de uma língua para outra, não encontram a mesma rede conceptual em que os sentidos se posicionam. A tradução confronta-se com essas experiências diversificadas. Por isso, a língua de chegada, no caso da poesia, tem de viver de múltiplos compromissos e, até, de artifícios em que se conjuguem os referidos valores semânticos e rítmicos. O lugar dessa chegada tem que ser também um poema. Tem de passar da literalidade para a textualidade.

No livro "Através do Ar", de autoria de Casimiro de Brito e Ban'ya Natsuishi, a questão já está resolvida (em quatro línguas: japonês, português, inglês e francês). Encontramos várias versões de haiku a partir de poemas alternadamente traduzidos pelos autores. Cada um deles aparece também em tradução inglesa deste género poético japonês que é Stephen Rickert, falava na "arte do inacabado". Trata-se, com efeito, de um género sumamente elíptico. Ele vive de sugestões, de impressões ambiguamente visualizadas, de condensações. Há uma referência nesses poemas a uma realidade fugitiva, evanescente.
Consideremos este poema de Casimiro de Brito:

Não te esqueças de mim,

dizem os homens uns aos outros,
afastando-se.

As traduções que o livro inclui são como ondas concêntricas em torno do mesmo instante poético. Ora a palavra ondulação talvez seja uma das que mais se adequam ao espírito do haiku: as imagens visuais - derivadas quase sempre da Natureza - estão presentes, mas perdem a sua acuidade perceptiva para ganharem outro registo. O seu sentido literal, no acto de leitura, fica desfocado. Mas - acrescente-se - não desaparece... A noção de afastar-se, no haiku citado, ficou a oscilar entre o sentido da despedida e de radical esquecimento. Qual destes prevalece?"


excerto de "crónica de poesia" , de Fernando Guimarães - JL



quarta-feira, fevereiro 27



alice jorge (1924 - 2008)







Ilustrações para o conto História de Juder, o Pescador ou o Saco Encantado, traduzido por João Gaspar Simões (1903-1987), de O Livro das Mil e uma Noites, volume III (1959).



segunda-feira, fevereiro 25



BD Marjane - Persépolis


Marjane, iraniana. Aos 9 anos presencia a revolução islâmica no Irão, que leva à prisão milhões de pessoas e passa a obrigar o uso de burca pelas mulheres.

Com o início da guerra entre o Irão e o Iraque, os pais mandam a pequena Marjane para estudar na Áustria. Com 14 anos, enfrenta as dificuldades da adolescência numa terra estrangeira.

Terminado o secundário, Marjane põe a burca e volta para a tirânica sociedade iraniana, passando por um difícil período de readaptação. Aos 24 anos, sem poder viver calada diante das hipocrisias do seu país, muda-se para a França em busca de um futuro mais optimista.

Autobiográfico, Persépolis ganhou o prémio de melhor BD em Cannes.

fonte: marie claire


domingo, fevereiro 10






chuva de pessoas
estranhas
simpáticas
porém, estranhas
conhecem
gostam
difamam
não querem saber




quarta-feira, janeiro 16



MÁSCARAS E SERVIÇO PÚBLICO
Vasco Graça Moura

escritor




Palavra de honra que eu não fazia tenções de, tão cedo, voltar a falar da ASAE. Mas as notícias emocionantes do último fim-de-semana funcionaram como catalisador e espevitaram brilhantemente o meu zelo cívico.

Já aqui há tempos o respeitável inspector-geral da ASAE tinha dito, no Expresso da Meia -Noite, que alguns agentes do seu serviço surgem de carapuça nas feiras porque poderia ser desagradável para eles, que por vezes são vizinhos de gente ligada aos feirantes, serem reconhecidos na vida de todos os dias.

Esta forma de assegurar um bom ambiente convivial de vizinhança e a informação sobre o treino do pessoal da ASAE com serviços secretos e polícias estrangeiras é que produziram em mim o déclic triunfal. Eis a solução para muitos problemas!

Pensei logo nos professores. Se receberem treino de manejo de armas e de explosivos, operações de comandos, pantominas de assalto e circulação de capuz negro, não apenas ficam ao abrigo da deterioração eventual das suas relações de vizinhança e proximidade, como podem cumprir muito mais eficaz e corajosamente a sua insubstituível missão.

Os professores têm sido vítimas das mais inqualificáveis violências, quer da parte de alunos, quer da parte dos pais deles. Pois bem, se tiverem preparação militar, aprenderem a manejar uma pistola de guerra ou uma bazuca e se apresentarem nas escolas de cabeça coberta e com uniforme acolchoado correspondente, as vantagens saltam aos olhos:

Primeiro, sentirão as orelhas e o nariz muito mais agasalhados, o que não é despiciendo atentas as inóspitas condições de alguns estabelecimentos de ensino.
Segundo, não podem ser reconhecidos, o que facilita as substituições, por exemplo, quando o professor de Matemática falta e a aula de Matemática é dada pelo de Educação Física, com óbvia solução de muitos problemas de gestão de pessoal. Sem contar que ficam ao abrigo das agressões intempestivas dos encarregados da educação. Quando um aluno é castigado, tem más notas ou chumba sem apelo nem agravo, como é que eles vão saber de que professor se trata? Como é que hão-de ir à escola tirar-lhe satisfações, insultá-lo, partir-lhe a cara, ou mesmo fazer-lhe uma espera traiçoeira, pelo lusco-fusco, à porta de casa?
Terceiro, com esse musculado adestramento, os professores podem manter o respeito e a disciplina muito mais facilmente. Não só pela razão saudável de que os alunos ficarão deveras acagaçados ante uma figura mascarada que lhes explica que não foi o Marquês de Pombal quem descobriu o caminho marítimo para a Índia ou tenta dar-lhes a perceber que o nome predicativo do sujeito não é um disjuntor, mas ainda porque é muito mais difícil, se não de todo impossível, ajustarem contas com o docente cá fora.

E, quanto aos incidentes ocorridos no próprio espaço da aula, os resultados serão igualmente positivos: se o menino Zacarias tentar agredi-lo, ou se o menino Eleutério se lembrar de dar cabo da carteira ou do computador, ou ainda se se puser a tirar macacos do nariz e a beliscar o rabo do menino Teodoro até espirrar sangue, o professor, convertido em atirador especial, pode puxar da Parabellum e acertar na cabeça do menino Zacarias ou do menino Eleutério sem correr o risco de atingir o inocente menino Teodoro ou a omoplata frágil da menina Cátia Vanessa.

Depois de duas ou três cenas deste género, não pode haver quaisquer dúvidas de que o aproveitamento escolar melhorará exponencialmente e de que todos os professores, mesmo os que prestam serviço nas escolas mais problemáticas, podem viver descansados e sentir-se plenamente realizados na carreira que escolheram.

O mesmo princípio pode ser adoptado noutros serviços de interesse público. Ocorrem-me os revisores da Linha de Sintra, os condutores dos autocarros nocturnos e muitos outros.

Tudo o que é preciso é que passe a haver regulamentos que tornem isto possível. Depois, não terão sido os professores quem fez os regulamentos, tal como acontece com a ASAE que se limita a cumpri-los.
E finalmente viveremos numa democracia digna desse nome e da actuação mascarada de quantos lhe prestam serviço.